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domingo, 30 de maio de 2010

Sobre a série Dexter

Wikipédia define:

 Dexter é uma premiada série televisivaestadunidense do canal Showtime, exibida desde 2006 nos Estados Unidos, e desde 2007, no Brasil pelo canal FX Brasil, e, em Portugal pela FX Portugal.
A série é baseada no livro Darkly Dreaming Dexter, de Jeff Lindsay, e conta a história de Dexter Morgan, um assassino em sérieanalista forensesangue, no departamento de polícia do Condado de Miami-Dade. Dexter é interpretado por Michael C. Hall. que trabalha como especialista em padrões de dispersão de
Nos Estados Unidos, a primeira temporada teve doze episódios e foi exibida de 1 de outubro de 2006 a 17 de dezembro de 2006. A segunda temporada, nos EUA, foi exibida no segundo semestre de 2007 e também contou com doze capítulos.
Valendo-se do fato de ser um expertflashbacks e, paulatinamente, vai desvelando diversos segredos dos personagens, criando um ambiente de constante suspense.
 
  

Um olhar admirador...
segundo Bruno Carvalho, em Ligado Em Série  [na íntegra]

 Ah, como o som de três simples palavrinhas pode virar o jogo de forma tão abrupta, não? “Olá, Dexter Morgan” foi o cumprimento daquele que foi subestimado por seu caçador, que agiu meticulosamente seguindo um código de conduta estrito ao longo de muitos anos e que triunfa no terreno do inimigo com apenas um mero cortejo. Mais uma vez desde que decidiu “voar solo” e ignorar algumas regras de seu pai, Dexter se encontrou em uma situação impossível e que o deixa completamente exposto e sem ação. Arthur Mitchell é um psicopata doente, sim, mas um psicopata doente que sobreviveu décadas sem ser descoberto. Ambos foram desleixados e ambos ganharam pequenas batalhas, mas a perícia e destreza que sobram em Morgan são compensadas pelos anos de experiência do velho matador. 


 Este foi um episódio repleto dos arquétipos da psicologia que estão presentes em toda a série. Para Freud, a infância é o momento crucial da vida onde a personalidade do indivíduo é formada e dali nasceu a sede de sangue do nosso protagonista, a necessidade de se auto-afirmar perante figuras paternas de Debra e Christine e o incontrolável sonho de Arthur em resgatar o controle de sua triste história. Mas enquanto a ciência está aí para definir estas pessoas, no fim das contas é a Teoria do Caos que vai prevalecer sobre esta complexa e imprevisível situação. E mesmo brilhantemente pensada por uma competente e impecável equipe de roteiristas, a trama de Dexter chega para nós como um fractal, uma forma que não pode ser prevista ou antecipada. Se antes podíamos ter a esperança ou até mesmo a certeza de que tudo no fim iria dar certo, o “Olá, Dexter Morgan” neste contexto tão insustentável coloca tudo a perder. Falta pouco, agora.

*Aqui consta também uma crítica sobre a série: blog Contexto Moderno

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Filme The Village (A Vila) visto sob os olhares Psicanlítico e Junguiano.







The  Village  ( A  Vila )  2004 - EUA

Direção: M. Night Shyamalan – Elenco: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver – Duração: 120 minutos –Gênero: Ficção/Suspense

No ano de 1897 uma vila isolada do restante do mundo é um lugar tranqüilo para se viver em comunidade e harmonia. Entretanto, para se viver tranquilamente, os moradores não entram na floresta onde vivem as criaturas chamadas “Aqueles de Quem não falamos”. O terror que as criaturas despertam na comunidade é o suficiente para manter os moradores afastados. Mas a pergunta é: até quando? O jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) solicita aos responsáveis pela vila que ele possa ultrapassar os limites da floresta em busca de remédios para as pessoas, pois um de seus amigos morreu e ele se sente um pouco impotente em não fazer nada. Porém, ele é informado pelo líder Edward Walker (William Hurt) e por sua mãe Alice (Sigourney Weaver) que ele não deve se aventurar. Entretanto, ele não desiste fácil de sua idéia. Apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), Lucius também é amigo de Noah Percy (Adrien Brody), um jovem com problemas mentais que também ama Ivy , o que colocará em risco a vida de Lucius e Ivy. Desta forma, Ivy terá que fazer um grande sacrifício, no qual as verdades serão trazidas à tona.


Psicanálise explica ¹

O filme trata da história de nove pessoas que resolveram se afugentar do mundo urbano devido à violência dor, sofrimento e toda a falta de esperança que os grandes centros nos trazem. Juntos eles fundam um vilarejo no qual criam suas famílias isoladas de qualquer contato com o mundo externo.
Para manter o isolamento, esse grupo, chamado pelos habitantes da vila de “Os Anciões”, cria uma lenda sobre monstros que habitam a floresta que cerca o vilarejo. Todos os que entrarem na floresta serão mortos pelos seres chamados “Aqueles de quem não mencionamos”

Porém algo acontece no vilarejo que ameaça a manutenção da vila. Um jovem chamado Lucius Hunt, um corajoso rapaz que desejava passar pela floresta e ir as cidades em busca de remédios para seu povo, é atacado por outro rapaz com problemas mentais chamado Noah Percy, motivado por ciúmes de seu casamento com Ivy Walker.

A grande questão agora para o pai de Ivy, o Líder dos Anciões, estava entre salvar a vida de Lucius, permitindo que sua filha, deficiente visual, fosse até a cidade buscar remédios, ou manter a mentira sobre a vila, sacrificando assim a vida de Lucius.Mas o Sr. Walker não resiste ao amor da filha por Lucius e permite que a mesma vá à cidade e busque remédios. Antes ele conta toda a farsa sobre a história dos monstros, mas não adianta, por que Ivy ainda continua acreditando na existência de monstros. Durante sua caminhada, Noah encontra uma das roupas de monstro, e vestido nela, ele ataca Ivy na floresta, mas ela consegue matá-lo, achando assim que matou um dos temíveis monstros.

Ivy retorna da fronteira da floresta após encontrar um guarda que lhe fornece os remédios. Na verdade, os guardas da floresta são empregados das empresas Walker, e a floresta toda é propriedade do pai de Ivy, mas ela não sabe porque não pode ver. Ela retorna ao vilarejo e assim a vida na vila continuará a mesma.

O filme retrata o medo pelo desconhecido e o estabelecimento de defesas internas que as pessoas criam para perpetuar um sentimento de “segurança”. Podemos perceber que o enredo do filme mostra como os personagens se isolam em um mundo de “fantasia”, descrito por Freud em seu artigo “Para Além do Princípio de Prazer” como um mecanismo que leva o sujeito a negar a realidade que seria na verdade uma evitação do desprazer que o levaria a viver de acordo com o “Princípio da Realidade”.


Percebemos que há uma tentativa de “fuga” do mundo real, com o objetivo de manter a ordem no mundo interior, o que leva a instalação do “recalque”, onde barreiras são formadas como forma de se estabelecer a ordem nesse mundo do inconsciente. Essas barreiras são simbolizadas pelas florestas em redor da vila, pela instalação do medo do desconhecido, das criaturas descritas como “Aqueles de quem não mencionamos”.

Estão presentes no filme sintomas de experiências traumáticas que levam as pessoas a estabelecerem uma relação de “desconfiança perante a vida”, levando-as a quererem se esconder de tudo que causa desprazer.

Porém o inconsciente busca maneiras de romper essas barreiras. Ele nos incomoda, transgride as regras e encontra formas de nos empurrar “para fora da vila”. Esse inconsciente é tipificado no filme pelo personagem Noah, um homem com a mentalidade de uma criança de cinco anos que não aceita regras e é extremamente desobediente, pois com freqüência ele adentrava a floresta sem medo das criaturas.

Um evento inesperado gera uma crise na vila, quando o personagem Lucius é ferido por Noah e precisa de “remédios”. Uma decisão precisa ser tomada: ou deixamos Lucius morrer ou nos arriscamos e saímos da vila, enfrentando os medos. Será que o personagem Lucius não representa uma vontade de ir mais além, de quebrar as regras, os recalques que nos impedem? Somente quando esse “Lucius” que está dentro de nós manifesta sintomas de morte é que corremos em busca de remédios.

As crises instaladas em nosso interior provocadas pela depressão, ansiedade, transtornos obsessivos, pânico colocam em risco o “Princípio de Vida” e nos colocam diante de uma escolha: ou morremos ou nos aventuramos “cegamente” no interior da floresta. Não seria a personagem Ivy um retrato do desejo de se ver livre do medo? Para vencê-lo é preciso encará-lo. Mas como encarar aquilo que está no nível do inconsciente?

Mesmo sabendo que ela não poderia ver os “monstros” da floresta. Mesmo sabendo que eles não eram reais, pois seu pai havia contado a ela a respeito da farsa, ela ainda assim sentia a presença desses monstros. Não seriam esses monstros uma figura das percepções equivocadas que nosso aparelho psíquico faz a cerca dos eventos? Entendemos que não são reais, porém não conseguimos evitar as emoções negativas que eles provocam.

Concluindo, é preciso ter coragem para entrar na floresta, assim como é preciso ter coragem para entrar em processo de análise. Quando iniciamos um processo de análise entramos cegos. Não enchergamos o que há na floresta. Aos poucos as resistências vão caindo até conseguirmos a atravessá-la por completo, o que muda nossa percepção acerca da vida. O medo nunca desaparece por completo, porém entendemos que ele não é real e que é possível vencê-lo todas as vezes que ele se manifesta em nossas vidas.


Sob o olhar Junguiano ²

Este filme reflete a tendência comum do ser humano em tentar encobrir o mal, negando, escondendo, fugindo e ocultando-o como um segredo.No filme, a vila é uma tentativa de criação de um local, um mundo ou uma realidade sem maldade, sem distorções, onde somente o bem e a inocência tenham lugar, como um oásis no meio de um deserto, um lugar puro em meio à feiúra do mundo e da realidade humana.

Segundo Jung, tudo que negamos em nós, coisas boas e ruins, viram nossas sombras. Afirma também que é da natureza humana termos múltiplos aspectos polarizados e contrários. Tendemos em nosso dualismo negar o mal em vez de transformá-lo e integrá-lo. Desta forma, escondemos este nosso aspecto como um segredo que deve ser escondido a sete chaves, já que o tememos e sentimos dele vergonha.

Temos vergonha exatamente do que nos faz humanos. Ter o mal dentro de si não significa que tenhamos que atuá-lo ou usá-lo de forma destrutiva. Ao aceitar que isto é uma característica humana, podemos trazer às claras este aspecto, diminuir sua força e ter alguma escolha sobre ele. Aceitar sua existência sem negá-lo ou escondê-lo traz para nós força e coragem, escondê-lo gera medo e fraqueza.

Há linhas de psicoterapia que trabalham com estes aspectos sombrios quando necessitamos de ajuda externa. Mas procurar estar na verdade e termos a coragem de olhar e reconhecer nossas distorções sem culpa é algo que todos podemos fazer e é uma ação realista que nos fortalece.

Quantas pessoas, famílias, grupos, comunidades e sociedade são enfraquecidas pelos seus segredos. Os segredos geram pensamentos, mentiras, contaminam a confiança entre pessoas e a própria autoconfiança. Há um grande alívio quando nos liberamos do cárcere de nossos segredos e isto nos torna mais honrados .

A nossa honra está em sermos íntegros e verdadeiros, mesmo que falhos e humanos. Nossa honra não está na aparência e em nosso anseio de perfeição. No filme, um dos “anciãos” conclui: “perdi lá fora um familiar e aqui já perdi vários. Aprendi que o sofrimento faz parte da vida.”

Na “vila”, criaram uma realidade a parte, sustentada pelo terror e mentira com o intuito de encobrir a realidade comum e se afastar de uma sociedade violenta. Criaram uma comunidade “pura” e “inocente”, onde seus habitantes são humanos e imperfeitos, onde mais cedo ou mais tarde, o crime brota como uma realidade não transformada no coração e atos dos homens.

É mais fácil escravizarmo-nos do terror de um monstro externo que se perpetua na ignorância que enfrentar o “monstro” interno que poderia ser transformado. Ninguém precisa aceitar ou gostar da violência social e nem se adaptar a ela como algo desejável ou comum. Mas queiramos ou não a violência social é um reflexo de seus membros. A violência externa é o resultado da violência interna não transformada. Mas como transformar a violência interna sem aceitar sua existência como uma realidade humana? Como transformar a violência externa sem aceitá-la como fruto da “doença” individual de todos os seus membros e não de somente uma parte que tem que ser excluída, banida e castigada? Podemos até procurar proteção criando condomínios fechados, altos muros e fortalezas para nos afastarmos do fruto que nós mesmos ajudamos a criar. Mas levamos o inimigo dentro de nós para dentro da fortaleza, já que é parte de nossa natureza humana.

Como fortalecer o amor e a inocência em meio à mentira? Como preservar a inocência e proteção de nossos filhos sem ensiná-los a lidar com suas próprias destrutividades internas? Quanto tempo podemos afastá-los ou apartá-los do perigo, isolando-os da realidade humana à qual pertencem?

Por fim, o filme mostra uma saída no amor, que move montanhas, na cegueira que enxerga com os olhos da sabedoria dos sentimentos, e da coragem que se fortalece não no aparente bom senso, mas no ato humano de fazer o que tem que ser feito para preservar a vida digna sem medos.


Trailer


















quarta-feira, 26 de maio de 2010

Laranja Mecânica (Clockwork Orange)


O anti-herói do filme é Alex DeLarge, um jovem líder de uma gangue de delinqüentes, amantes de leite drogado e música clássica, que tem por diversão bater, estuprar, matar... Enfim, cometer qualquer brutalidade que tenha vontade, não se importando com as leis ou o senso humanitário, somente pensando na própria diversão. Quando finalmente é pego pela polícia, sofre um tratamento duro de reabilitação. Um novo método, cruel, que faz com que a pessoa fique totalmente indefesa com relação a violência do mundo. E, mais uma vez, Kubrick brilha de maneira fascinante comparando os atos de Alex antes de sua internação com os da sociedade em resposta ao seu passado na segunda metade do filme. Você realmente se questiona sobre qual tipo de atitude é pior, mais fria, desumana. Não digo isso somente nas pessoas da rua, os antigos amigos de Alex, e sim com toda a falta de escrúpulo em volta dos interesses políticos sobre a situação. Uma ousadia incrível de Kubrick, perfeitamente retratada, questionar o sistema de modo tão duro.


Laranja Mecânica (1971)

O diretor norte-americano Stanley Kubrick encontrara no romance futurista homônimo de Anthony Burgess o substrato para revisitar o grande tema de sua filmografia, que não chegava ao nono título. Toda a obra madura de Kubrick discute "das Unbehagen in der Kultur", "o mal-estar na civilização". (Título de livro de Sigmund Freud)

Muita gente cita o filme "Laranja Mecânica" para falar mal do Behaviorismo Radical.

Ledo engano! Na verdade as atrocidades do filme só ocorrem porque não tem nada de Behaviorismo Radical nele!

O filme, que é o meu favorito do diretor Stanley Kubrick e já assisti mais de 20 vezes, é baseado em um romance cyberpunk do inglês Anthony Burguess. O protagonista é Alexander De Large, um delinqüente de 16 anos que para sair do presídio (preso por homicídio) topa fazer parte de uma experiência científica na qual será transformado em uma "pessoa boa".

A experiência consiste em um procedimento de condicionamento clássico, pavloviano. Através de bizarras sessões (usando filmes, drogas e outros recursos desumanos) Alex é condicionado a responder com fortes náuseas à violência. Assim, toda vez que ele vê violência ou vai agir de forma violenta, cai no chão, sem poder fazer mais nada. Ele não escolhe "ser bom": é apenas impedido (por punição) de "ser mau". (Questão ética aí, não?)

Uma prova de que o experimento nada tem de Behaviorismo Radical é que o cientista responsável é um tal de Dr. Brodski. Já pelo nome podemos ver se tratar de um (reflexologista) russo, e não um (behaviorista) norte-americano. A prova final de que faltou uma visão beheca está no fato de que Alex, após o aparente sucesso do experimento, é lançado ao mundo sem emprego, sem amigos e sem família., sem assistência alguma! Ou seja, os cientistas russos entenderam que alterado o organismo tudo estava resolvido, e não se deram conta que o condicionamento de Alex não duraria pois ele seria lançado em um ambiente hostil e sem ninguém para orientá-lo.

"Laranja Mecânica" é na verdade uma crítica a sociedade que controla pela punição e não enxerga o indivíduo em sua singularidade. (Tudo que Skinner também é contra em sua proposta filosófica).

Kubrick procura examinar sob um ponto de vista freudiano histórias com potencial mitológico que tratem de personagens desajustados dada a inescapável repressão instintual exigida pela vida em sociedade. (Vide "Lolita", "O iluminado", "Nascido para Matar").

Mesmo quando este tema não é dominante, como em "Doutor Fantástico" ou "2.001, uma Odisséia no Espaço", é ele que sustenta a discussão kubrickiana, seja da paranóica corrida nuclear ou do futuro da humanidade diante do avassalador progresso tecnológico, respectivamente. Assim como o filme "Nascido para Matar", "A Laranja Mecânica" é uma típica versão cinematográfica do "Bildungsroman", o tradicional romance de formação alemã que acompanha o processo de educação moral e intelectual de um jovem, lapidando-o para o convívio social.

Kubrick, aproveitou esta conhecida estrutura narrativa para aplicá-la a seu modo. Assim, em "Nascido para Matar" assiste-se a mais cruel educação para o assassínio dos jovens "marines" americanos que vão lutar no Vietnã. Já em "A Laranja Mecânica, o processo de domesticação tem um objetivo diverso.

O protagonista Alex (Malcolm MacDowell) é um jovem que teria atingido a alvorada da idade adulta ainda com sua arquitetura psíquica infantil intocada, em estado bruto, o que implicaria a plena liberdade para a expressão de seus instintos. Isso seria uma virtual impossibilidade psicológica, pois as – por assim dizer – forças civilizatórias já se apresentam atuantes desde a mais tenra idade, mas ficção é ficção e assim prossigamos.

A primeira parte do filme nos mostra, numa Inglaterra futura, Alex e sua gangue de boçais espancando um velhote bêbado, drogando-se, violentando uma mulher depois de aleijar seu marido escritor, assassinando a 'mulher gato'.

Com isso, Alex satisfaz amoralmente seus instintos sexuais e de destruição. Sua prisão após o último crime será uma espécie de segundo parto. Depois de tranqüilos dois anos de cárcere, Alex se candidata a um novo método de condicionamento psicológico que regeneraria definitivamente os criminosos, devolvendo-os pacificados ao convívio social (Método Ludovico).

Para Alex, seria este uma espécie de supletivo no princípio da realidade. Mas o experimento behaviorista erra na dose, substituindo a absoluta liberdade instintual pela completa repressão. Violência e sexo passam a provocar vômitos e náuseas em Alex, que se descobre paralisado, desumanizado como uma laranja mecânica. e io que vema  ser laranja mecância? segundo Anthony (o autor): "...O ser humano é dotado de vontade. E pode usá-la para escolher entre o bem e o mal. Se só pode fazer o bem, ou só pode fazer o mal, é uma laranja mecânica - significa que tem aparência de um organismo adorável, com cor e suco, mas que na realidade é um brinquedo mecânico para ser manipulado por Deus ou pelo Diabo ou (que o está substituindo cada vez mais) o todo-poderoso Estado. É tão inumano ser totalmente bom quanto totalmente mau. O importante é a escolha moral. O mau tem que existir junto com o bem, de modo que a escolha moral possa existir."

Aproveitando-se desse novo estado, suas vítimas se vingam das cruezas pretéritas e Alex é resgatado de uma tentativa de suicídio por aqueles que o usaram como cobaia _ lembrar do desvairado viúvo paraplégico, rs...

A mais rotineira interpretação de sua "cura" final, assinada entre outros pela ácida Pauline Kael em "The New Yorker", vê Alex voltar a ser o mesmo delinqüente do início, com a diferença de contar agora com a proteção de poderosos padrinhos (o governo inglês, representado pela figura do Ministro do Interior).

Sua violência foi, para usar as palavras de Freud "suplantada pela transferência do poder a unidade maior, que se mantém, unida por laços emocionais entre os seus membros" (em "Por que a Guerra? Carta a Einstein").


Alex aderiu ao essencial pacto civilizatório e a prova disso é que seus devaneios pós-recuperação remetem a uma prática sexual sadia e socialmente aprovada (ele se imagina fazendo amor com uma mulher sob os aplausos de uma multidão).

Pauline Kael também criticou Kubrick por ter "assumido a perspectiva deformada e hipócrita de um jovenzinho depravado". Eis outra observação apressada e superficial. Kael confundiu o narrador do filme (e do livro ) com um pretenso "alter-ego" ou porta-voz exclusivo do autor.

Kubrick "fala", naturalmente, através do filme como um todo, do conjunto dos personagens, e se tivéssemos que apontar algum porta-voz, seguindo suas próprias palavras, teríamos que destacar o capelão do presídio. É ele quem alerta expressamente para os riscos de se tentar eliminar a possibilidade do homem exercitar seu livre-arbítrio, questão apontada por Kubrick como central em suas preocupações. É um "grito" frente ao abuso cometido por um governo generalizador. Behaviorismo? Por que?

Mas a sempre perturbadora Kael foi voz dissonante quando do lançamento de "A Laranja Mecânica". Kubrick jamais conheceu êxito crítico igual. Houve, contudo, também quem considerasse sue filme uma diluição comercialesca do livro de Burgess. Por certo Kubrick não foi tão original quanto Burgess ao tratar de sua própria arte. Este criou no livro um vocabulário sincrético para a gang de Alex, que faria inveja a James Joyce. O próprio Kubrick reconheceu que sua versão cinematográfica resultou formalmente mais conservadora. Mas equiparar seu filme a qualquer caça-níqueis hollywoodiano com maquiagem futurista é uma estultice. Basta repara a imperturbável organicidade dos elementos ultraestilizados de "A Laranja Mecânica" (décor asséptico, tipos cartunescos, cenas coreografadas, etc.) para que se perceba o raríssimo domínio completo que Kubrick tem sobre seu ofício.

Mesmo não sendo este seu melhor filme, sobretudo por problemas de ritmo devido á excessiva duração, encontram-se aqui inúmeros momentos que se fixam perenemente à memória – como o estupro ao som de "Cantando na chuva" e o bacanal ao som da abertura do "Guilherme Tell" de Rossini. São peças com lugar obrigatório dentro do museu imaginário de todo cinéfilo. De quantas cenas rodadas deste então podemos dizer o mesmo? (Amir Labaki – "Folha de São Paulo", ano 1992)



Uma explicação para a atração duradoura de "Laranja Mecânica" é a contemporaneidade intelectual dos temas de que se ocupa. A violência deliberada, a máquina estatal que prefere submeter seus delinqüentes a lobotomia do que lhes permitir o direito de escolha. Os jovens que usam drogas para se prepara para um noite de estupro e pilhagem. Uma sociedade que cura a violência através da criação de robôs morais.

Segundo Ron Daniels, que dirige peças de Shakespeare, "A Laranja Mecânica" não é pior do que de Hamlet ou Macbeth. "A peça é uma história admoestatória de uma sociedade que não cuida de seus jovens e não lhes deixa se expressar. É uma fantasia de liberdade, de uma liberdade pavorosa, é uma fábula de retribuição.

O Alex no início é um tipo de Lúcifer, solto num inferno urbano. Ele não sente culpa, não tem escrúpulos nem remorsos, mas como ele mesmo diz, tem que ser destruído. Mas nós respondemos a ele numa maneira ambivalente, achando-o atraente mesmo quando ficamos revoltados com as coisas que ele faz", diz Daniels.

Burgess na apresentação de "A Laranja Mecânica" no palco como peça teatral afirma: "o que parece como uma celebração da violência, pior no palco do que no livro ou filme de Kubrick, inexplicavelmente proibido na Grã-Bretanha, é realmente uma investigação da natureza do livre arbítrio. É um drama teológico.

Quando os seres humanos são impedidos de praticar atos de perversidade eles também são incapazes de desempenhar atos de bondade. Isso porque ambos dependem do que Santo Agostinho chamou de liberum arbitrium – livre arbítrio". Burgess diz que com esta versão teatral e com o filme será acusado de promover a violência entre os jovens .

"Um homem que matou seu tio responsabilizou Hamlet de Shakespeare. Um menino que arrancou os olhos de seu irmão culpou uma edição escolar de Rei Lear. Os artistas literários são sempre tratados como se tivessem inventado o mal, mas sua verdadeira tarefa, uma das muitas, é mostrar que o mal existia muito tempo antes que pudessem segurar sua primeira caneta ou usar seu primeiro word processor. Se um escritor não contar a verdade é melhor que não escreva".
(Antonio Carlos Seidl – Jornal "Folha de São Paulo", 1992)


EM NOME DO PAI


Gerry era um pequeno delinqüente de Belfast, durante os anos 70. Depois de ir para a Inglaterra, é injustamente acusado como um dos quatro terroristas de Guildford, pegando prisão perpétua. Giuseppe Conlon, pai de Gerry, tenta ajudar o filho e também é condenado, mas pede ajuda à advogada Gareth Peirce, que investiga as irregularidades do caso. Gerry descobre, aos poucos, suas forças mais profundas para lutar contra tal injustiça.

"In the Name of the Father" (1993)


O filme inicia-se com o retratar do ataque bombista da IRA (Irish Republican Army) a um bar londrino em 1974. Faz-se negro o écran e surge a voz de Bono entoando o tema do filme. Estamos em finais dos anos 80. Enquanto viaja no seu automóvel, a advogada Gareth Pierce coloca no rádio a cassete em que Gerry gravou a sua história. E então a narrativa volta atrás no tempo levando-nos para as conturbadas ruas de Belfast (Irlanda do Norte) onde Gerry arranja sarilhos com as tropas britânicas. O confronto acaba por colocá-lo frente a frente com agentes da IRA, fartos das suas brincadeiras e pequenos roubos. Giuseppe, o sábio pai de Gerry, receia que alguma coisa lhe possa acontecer e resolve enviá-lo para Londres para a casa da Tia Annie Maguire, na esperança de que arranjasse algum emprego.

Gerry é um jovem rebelde que ignora os conselhos do pai e acaba por juntar-se a uma comunidade hippie onde se vive segundo os ideais da liberdade, do amor e…da droga. Mas o bom clima dura pouco e Gerry, juntamente com o seu amigo Paul são obrigados a deixar a comunidade, devido ao clima instável que se começara a gerar. Vagueiam sem dinheiro nas ruas de Londres, sem dinheiro nos bolsos, até que se dá o atentado ao bar. Gerry estava no lugar errado e à hora errada. Ele e quatro dos seus amigos são presos e torturados pelos agentes da polícia, que pressionados pelo próprio sistema que representam e pela indignação da opinião pública, querem à força encontrar os culpados. Obrigado a assinar uma confissão falsa, Gerry acaba por fazer com que o pai, a tia Annie e os filhos desta fossem presos e acusados de serem cúmplices. Surgem provas adulteradas e o juiz acaba por ordenar a prisão para todos. Levado para uma prisão de alta segurança, juntamente com o pai, o jovem acaba por descobrir no pai uma força interior que não julgava que existisse. Pouco a pouco deixa de lado o seu tom e atitudes de rapaz rebelde, iniciando com o pai uma luta contra a injustiça e tentativas para provar a sua inocência. Luta essa que duraria quinze longos anos.

(by Isabel Fernandes)

Irlanda do Norte - atentado - injustiça - bode expiatório - família - opinião pública


FONTE

sábado, 22 de maio de 2010

A Corrente do Bem


A Corrente do Bem

SINOPSE
Eugene Simonet (Kevin Spacey), um professor de Estudos Sociais, faz um desafio aos seus alunos em uma de suas aulas: que eles criem algo que possa mudar o mundo. Trevor McKinney (Haley Joel Osment), um de seus alunos e incentivado pelo desafio do professor, cria um novo jogo, chamado "pay it forward", em que a cada favor que recebe você retribui a três outras pessoas. Surpreendentemente, a idéia funciona, ajudando o próprio Eugene a se desvencilhar de segredos do passado e também a mãe de Trevor, Arlene (Helen Hunt), a encontrar um novo sentido em sua vida.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Reportagem sobre Dislexia



Vídeo tratando de forma bem direta o tema da Dislexia. Confira!

Cine Estação exibe filmes às margens da Baía do Guajará


Quem disse que exibições da sétima arte estão restritas a salas fechadas, escuras, com ar condicionado? A Baía do Guajará é o cenário do novo espaço de divulgação do cinema em Belém. O projeto do Cine Estação será lançado nesta quarta-feira (19), às margens da Estação da Docas. As exibições serão sempre às 19h, com entrada franca.

'Dezembro' e 'Terra Estrangeira' serão os primeiros filmes exibidos nesta ação que apresentará gratuitamente e ao ar livre, filmes paraenses e de outras partes do Brasil. O projeto pretende permitir uma maior interação entre os cineastas e o público, além de valorizar a cultura brasileira e democratizar o acesso ao cinema. A iniciativa é direcionada para públicos de todas as idades, mas tem foco especial em crianças e adolescentes.

Para a Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), essa é mais uma ação que tem como objetivo criar novas oportunidades de acesso à sétima arte em Belém. 'Com o mecanismo de apresentar o filme, exibir e debater, esperamos estar ajudando na formação de uma plateia mais interessada em cinema', afirma o presidente da ACCPA, Marco Antônio Moreira.

Além de proporcionar uma diversão gratuita, o Cine Estação apresentará películas diferenciadas, escolhidas a partir da parceria da Associação de Críticos e a Organização Social Pará 2000, empresas que propõem o projeto do cinema ao ar livre.

'A possibilidade de mostrar para as pessoas filmes que elas normalmente não veriam, é muito interessante. Podemos criar no público, um novo interesse por outros tipos de filmes e caso isso aconteça, a iniciativa ganha uma força pedagógica muito grande que pode inclusive ser ampliada para outras ações dentro do próprio cineclube', avalia Moreira.

PROGRAMAÇÃO

Maio (19)

Curta: 'Dezembro', de Fernando Segtowick.
Longa: 'Terra Estrangeira', de Walter Salles

Maio (26)

Curta: 'O menino urubu', de Fernando Alves 
Longa: 'Fantasia', de Walt Disney

Junho (02)

Curta: 'Belém - cidade das Águas', de Jorane Castro 
Longa: 'O Invasor', de Beto Brandt


Junho (09)

Curta: 'Matinta', de Jorge Vidal 
Longa: 'Tempos Modernos', de Charles Chaplin

Julho (21)

Curta: 'Visagem', de Roger Ellarrat 
Longa: 'Jogo de Cena', de Eduardo Coutinho

Julho (28)

Curta: 'O Rapto do Peixe-Boi', de Cássio Tavernard 
Longa: 'Sete homens e um destino', de John Sturges

Agosto (04)

Curta: 'Muragens – crônicas de um muro', de Andrei Miralha
Longa: 'Bye, Bye Brasil', de Carlos Diegues


Agosto (25)

Curta: 'A origem dos nomes', de Marta Nassar
Longa: 'O Fantasma do Paraíso', de Brian De Palma

Serviço
Inauguração do Cine Estação ao ar livre, com exibição dos filmes 'Dezembro' e 'Terra Estrangeira'. No dia 19 de maio, às 19h, na Orla da Estação das Docas (Boulevard Castilho França, s/n. Campina). Entrada franca. Informações: (91) 3212-5660.

Redação Portal ORM